Estrerá no próximo mês de abril, em praças públicas de Jequié, o espetáculo "O Teatro é de Cordel" encenado pelo grupo "Condieiro Encantado", logicamente, baseada em textos da literatura de cordel. O projeto é patrocinado pelo Fundo de Cultura da Bahia, através da SecultBA. E pra falar sobre o assunto, o blog "Enfoque Cultural" convidou o ator e diretor da peça, Saulo Santos, graduado em Teatro pela Universidade Federal da Bahia, que nos fala sobre o processo de montagem dentre outras curiosidades relacionadas ao espetáculo.
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| Saulo Santos - Diretor de "O Teatro é de Cordel" |
1.
Enfoque Cultural: Um fator que torna o projeto ainda mais interessante é que o espetáculo aproxima-se ainda mais do público, já que se trata de uma encenação de rua que leva a literatura de cordel a todos. Como surgiu a iniciativa?
Saulo Santos: A iniciativa surge de um encontro de artistas jequieenses com outros recém-chegados a cidade – bem como a vontade de trabalhar juntos – cada um trazendo em seu “matulão” experiências anteriores com Teatro Popular, música, artes plásticas, etc...; especialmente eu (Saulo Santos) e o ator Marcos Duarte que já havia trabalhado com o Teatro de Cordel, sendo base de nossas pesquisas como ator e professor de teatro. O cordel, sempre surgia nas conversas, hora na mesa de um bar ou numa improvisação, por se tratar de uma literatura intima de nosso povo, carregada de humor e encantamento. Então, inquietos com a mesmice das noites jequieenses, resolvemos montar uma pequena apresentação “contando e mostrando” histórias de três folhetos de cordel para apresentarmos nos bares da cidade - inicialmente era tudo muito na brincadeira mesmo. Em duas semanas levantamos as cenas, denominadas pelo grupo de “intervenções”. A nossa estréia aconteceu no Bar Quintal, em meio ao abrir de garrafas, risadas e conversas nascia O Candieiro Encantado. Ao escolhermos o bar para ser nosso palco, assumimos o grande risco de não ter a tão importante e essencial atenção do público, ao mesmo tempo em que aquela experiência seria um instigante exercício de ator. Naquela noite, após quatro apresentações em quatro bares diferentes, cada um com sua problemática, os corpos exaustos, a voz cansada e alma limpa acompanhada da sensação de que não era só brincadeira, percebemos que a cidade quer teatro, a cidade quer cultura. A partir daí formam inúmeras intervenções, sempre refletindo a nossa prática buscando transgredir. Hoje nos encontramos em processo do novo espetáculo e primeiro para o grande público, ainda na mesma linha de pesquisa, avançando, pesquisando, para levar a plateia toda a beleza da nossa literatura.
2. Enfoque Cultural: Além da Lei Estadual de Fomento à Cultura, que tornou possível realizar esse espetáculo, vocês contam com algum outro apoio ao projeto?
Saulo: O espetáculo “O Teatro é de Cordel” atualmente só é apoiado financeiramente pelo Fundo de Cultura do Estado, mas houve outras tentativas via prefeitura inclusive, mas sem nenhum êxito. Claro que há outros tipos de apoios importantíssimos, como a UESB e o Centro de Cultura de Jequié que sempre nos apóiam de alguma maneira. Recentemente o grupo foi convidado pela Cia. Caixa do Elefante (RS) para participar de uma residência artística em Porto Alegre, visando contribuir na montagem do novo espetáculo, mas infelizmente não conseguimos custear os gastos com passagens e estadia.
3. Enfoque Cultural: Como será executada a trilha sonora do espetáculo?
Saulo: A trilha será ao vivo, teremos uma banda em cena, bem como todo o elenco tocará e cantará. Estamos trabalhando, pesquisando a música cigana e nordestina, preparando-se musicalmente para fazer um espetáculo lindo de se ver e ouvir. A direção musical é assumida por Janos S (Bacharel em Música pela UFBA), artista conquistense que tem em sua estrada varias experiências em trilhas sonoras de espetáculos teatrais, o que está contribuindo brilhantemente na montagem.
4. Enfoque Cultural: A partir da realização de festivais de teatro em Jequié, bem como com a implantação do curso de Licenciatura em Artes (Dança e Teatro), na UESB, percebemos uma certa efervescência na produção teatral local. Em sua opinião, em que os festivais e a preparação acadêmica de novos atores e atrizes colaboram na montagem de novos espetáculos e na produção de um modo geral?
Saulo: Jequié sempre teve uma movimentação de produção teatral interessante, comecei a fazer teatro aqui, principalmente, por ver espetáculos dos grupos da cidade, o que despertou o interesse pelo Teatro. Nas minhas experiências em Jequié, sempre percebi o potencial artístico dos artistas, dos novos, dos mais experientes, mas também percebia certo cansaço no fazer, em virtude muitas vezes da falta do apoio necessário. Porém, o artista tem que ser inquieto, a arte se renova a todo o momento. Agora retornando a Jequié depois de cinco anos em Salvador, me deparo com um novo momento do Teatro jequieense, rodeado de novidades, de pessoas querendo “fazer” e possibilitando “fazeres”. Mostrando ao publico que o Teatro vai alem do besteirol e dos shows de piadas, existe um infinito de possibilidades; a academia e os festivais dentre outros projetos como o “Palco Giratório” (SESC) tem contribuindo muito para a formação da plateia da cidade bem como na formação do artista. Acredito que a formação acadêmica é uma das outras tantas possibilidades de ser artista, foi a que escolhi, a que me possibilitou entender o que faço, entender que outras pessoas fizeram e fazem, respeitando nossa arte como área do conhecimento fundamentada. Tenho muita fé no TEATRO dessa cidade, nos artistas daqui, mas percebo que ainda há certa resistência quanto à academia, temos espaços de ótima qualidade. O momento deve ser aproveitado, vamos ousar!
5. Enfoque Cultural: A função política do teatro, percebida especialmente nos anos 60, a época da ditadura, vem se perdendo. Há alguma abordagem ou crítica política dentro do contexto da peça, trazida à cena?
Saulo: O Teatro é político por natureza, por ser questionador. Nesse espetáculo o fato de ser na rua potencializa esse ato político, afinal, vamos levar o teatro para um espaço não convencional, permeado muitas vezes por carros de sons, possibilitando a quem passa, uma outra opção, para pensar, se divertir, se emocionar. Temos também a presença da Literatura de Cordel, que por muitos foi esquecida, então aproveitamos a oportunidade para fazermos uma ode ao poeta popular, ao imaginário popular, essa talvez seja a principal abordagem política do espetáculo.
6. Enfoque Cultural: Porque vocês escolheram a Literatura de Cordel para encenar um espetáculo, e o que o grande público pode esperar do “Teatro é de Cordel”?
Saulo: O próprio nome do espetáculo é uma espécie de homenagem ao chamado Teatro de Cordel, prática comum do Teatro Brasileiro na década de 60, onde se encenavam histórias da Literatura de Cordel. Uma das peças mais conhecidas é O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, que foi um marco no Teatro Brasileiro, por ter sua dramaturgia baseada nos folhetos de cordel, considerada por alguns como literatura menor, na Bahia tivemos João Augusto um dos fundadores do Teatro Vila Velha que montou o espetáculo de nome Teatro de Cordel, onde encenavam-se os folhetos tal como é, mostrando suas rimas. Então, inspirados em experiências anteriores, O “Candieiro Encantado” levará a cena, diversas maneiras de mostrar e contar a literatura de cordel, baseando-se nas nossas vivencias e desejos, estamos bebendo de varias fontes, rádio-novela, melodrama, Teatro de Cordel, a música brasileira, besteirol, etc... - Será um espetáculo de surpresas, digno de levar o nome Cordel ao seu título.
Enfoque Cultural: Depois da temporada em Jequié, você pretende levar o espetáculo para outros locais?
Saulo: Ficaremos em cartaz entre os meses de abril de maio em algumas praças da cidade, sempre aos sábados e domingos, graças ao apoio do Fundo de Cultura do Estado da Bahia (Secult-BA), após essa temporada desejamos circular com espetáculo, inicialmente, por cidades do nosso interior e depois a capital e festivais pelo Brasil. Mas para tanto precisaremos de novos apoios financeiros para mostrar o potencial do Teatro do interior baiano, não se limitando as produções culturais da capital. Então, pra finalizar, reforço o convite para nossa temporada nas praças da cidade de Jequié. Agradeço em nome do Candieiro Encantado ao Blog Enfoque Cultural pela oportunidade de sempre aos artistas. Evoé!